Uma pesquisa liderada por paleontólogos da Universidade de Bristol, em colaboração com a Universidade de Hull, e pesquisadores do Brasil, mostra que os crocodilos modernos evoluíram para crânios mais planos e “fracos”, em relação aos seus ancestrais e outras formas terrestres extintas, para nadar com mais eficiência, confirmando parcialmente uma hipótese de longa data sobre a “permuta” entre força de mordida e adaptações aquáticas.
Muitos parentes extintos de crocodilos e jacarés modernos tinham crânios com formatos muito diferentes das cabeças planas e hidrodinâmicas que vemos hoje. Várias espécies terrestres tinham crânios altos em forma de cúpula que eram mais fortes e mais eficientes para se alimentar em terra.
Um novo estudo publicado na Proceedings of the Royal Society B revela que os crânios em forma de cúpula desses ancestrais terrestres eram muito mais fortes e eficientes durante a alimentação, quando comparados aos crânios mais planos das espécies semiaquáticas modernas.
A equipe comparou seis crocodiliformes (um grupo mais amplo que inclui crocodilianos modernos e seus parentes extintos). As três espécies extintas eram da Bacia Bauru, pertenciam ao clado Notosuchia e vivem durante o Período Cretáceo onde hoje é o Brasil. As espécies fósseis analisadas eram terrestres e tinham o focinho em forma de cúpula (oreinierostral). Estes foram comparados com três espécies vivas de crocodilianos modernos, que têm crânios largos e achatados (platirostral) adaptados para a vida na água. Os pesquisadores reconstruíram digitalmente os crânios de todas as seis espécies a partir de tomografias computadorizadas e usaram simulações de engenharia para explorar as diferenças em seu desempenho alimentar.
“Descobrimos que as espécies extintas, com crânios em forma de cúpula, eram mais fortes e tinham músculos da mandíbula mais eficientes do que os crocodilos modernos achatados, o que apoia parcialmente uma hipótese anterior dos efeitos do achatamento do crânio em crocodilos”, disse o pesquisador principal Dr. Ananth Srinivas, agora pesquisador de pós-doutorado na Universidade do Alabama, que realizou este trabalho como estudante de mestrado na Universidade de Bristol. “Quando os crocodilos se mudaram da terra para a água, seus crânios ficaram mais planos devido às pressões ambientais. Mas essa simplificação teve um custo, os crânios de crocodilo modernos experimentam até cinco vezes mais estresse ao morder do que seus parentes extintos que viveram em terra”.
Para se adaptar, os crocodilos modernos desenvolveram várias características, incluindo articulações reforçadas no crânio, armadura óssea e músculos da mandíbula aumentados que geram mordidas poderosas, apesar dos crânios mais fracos. Em contraste, os Notosuchia estavam livres dessas restrições e foram capazes de ocupar diversos papéis ecológicos, de herbívoros a predadores de ponta, demonstrando a flexibilidade evolutiva que permitiu que os crocodiliformes prosperassem por mais de 200 milhões de anos.
“Os fósseis que estudamos vêm das rochas sedimentares do Cretáceo da Bacia de Bauru, no Brasil, que preservam um dos registros mais diversos e informativos da história evolutiva dos crocodiliformes”, disse a paleontóloga brasileira Sandra Tavares, do Museu de Paleontologia de Monte Alto (SP). “Esses fósseis representam três grupos muito diferentes, cada um com formas únicas de crânio e nichos ecológicos, mostrando o quão diversos e adaptáveis esses animais já foram.” Esta pesquisa não apenas ajuda a explicar as pressões evolutivas que moldaram os crocodilos modernos, mas também lança uma nova luz sobre a anatomia e o estilo de vida desses três táxons principais do Cretáceo brasileiro.
Os resultados desta pesquisa revelam como os crânios de crocodilos evoluíram em resposta a novos ambientes e estilos de alimentação, segundo Fabiano Iori, paleontólogo do Museu de Paleontologia de Uchoa (SP). Ele exemplifica: “Temos o Caipirasuchus e o Baurusuchus, um herbívoro e um carnívoro, ambas espécies muito adaptadas, com crânios fortes e especializados. Contudo, suas linhagens se extinguiram. Em contrapartida, linhagens dentro do grupo Neosuchia que optaram pela vida aquática e por uma dieta mais generalista ocupam o planeta até hoje.” Iori conclui: “É um exemplo poderoso de como a evolução envolve um ‘toma lá, dá cá’ — neste caso, entre força e racionalização.”
Participaram também do estudo Emily J. Rayfield e John A. Cunningham (University of Bristol), Jen A. Bright (University of Hull), Fresia Ricardi-Branco (Unicamp) e Ismar de Souza Carvalho (UFRJ).











